{{Sapere Audare}} SOCIOLOGIA «TEXTO 05»

TÍTULO: JÜRGEN HABERMAS: ESTADO, MERCADO E MOVIMENTOS SOCIAIS
AUTOR:
Wagner Frederico Gomes de Araújo

EMAIL DO AUTOR:
wagner.fred@uol.com.br
DATA DE PUBLICAÇÃO: 08/02/2001


Habermas enxerga a modernidade ocidental através da racionalização cultural e societária e as conseqüências do processo de racionalização sobre os diversos atores sociais. O autor reconhece dois processos de racionalização: a racionalização instrumental e a racionalização comunicativa.

O primeiro processo baseia-se na racionalidade da lógica estratégica, centrada no sistema (Estado e mercado), a partir de uma ação estratégica. Já o segundo, relaciona-se com a racionalidade comunicativa, centrada no Mundo da Vida, através de uma ação comunicativa.

Habermas considera o instrumental sociológico para a análise da racionalização, sendo esta uma forma de diferenciação entre as diferentes estruturas societárias. Esta diferenciação fez com que a crescente complexidade da racionalização estratégica do sistema não fosse igual à racionalização do Mundo da Vida. Daí surge a multidiferenciação habermasiana das estruturas.

Pelo lado sistema, encontra-se o subsistema econômico e o subsistema administrativo. Este é representado pelo Estado, que utiliza a lógica estratégica do poder, através do código negativo da sanção. Já aquele ,é representado pelo mercado, fundando-se na lógica estratégica do intercâmbio, valendo-se do código positivo da recompensa.

Por outro lado, aparece o Mundo da Vida como consenso normativo a partir da racionalidade comunicativa, através de uma ação comunicativa, o que lhe confere identidade e solidariedade.

O sistema busca, muitas vezes, "colonizar" o Mundo da Vida. Entretanto, Habermas não aceita sua mercantilização e a burocratização (colonização do Mundo da Vida). Para o autor, existe perene tensão entre ambos, esta tensão cria uma disputa do espaço social nos pontos onde há o encontro, a interseção entre o Mundo da Vida e o Sistema. Surgindo, assim, a disputa política fundamental das sociedades contemporâneas.

Deste fato, resulta a necessidade da defesa da sociedade civil contra a penetração dos subsistemas da racionalidade instrumental onde predomina a ação comunicativa, através do dinheiro e do poder. Nesta perspectiva, advêm os movimentos sociais.

Esses movimentos surgem para organizar a sociedade e estabelecer novas formas de relação entre ela e os subsistemas. Formas estas contrárias à colonização do Mundo da Vida. A sociedade, portanto, assume as esferas pública e política. Ou seja, os movimentos sociais assumem a defesa da restauração das formas de solidariedade e identidade postas em risco pela racionalidade instrumental do sistema.

Os movimentos sociais, outrossim, possuem grande impacto no processo de democratização, pois a democratização, segundo Habermas, se resume à institucionalização no sistema político dos princípios normativos da racionalidade comunicativa. Esta institucionalização se faz pelos movimentos sociais.

O conceito de movimentos sociais está intimamente coligado ao de sociedade civil, estendendo esta como "os movimentos democratizantes autolimitados que procuram proteger e expandir espaços para o exercício da liberdade negativa e positiva..."(1) Essa relação se deve ao fato dos movimentos sociais buscarem espaço livre para organização e reprodução da cultura e a formação de identidades e solidariedades, ou seja, a própria sociedade civil. Po isso, esses movimentos, através da sociedade civil, não objetivam o fim do mercado ou do Estado, mas sim novas formas de organização destes para garantir as liberdades.

A sociedade civil encontra na obra de Habermas um arcabouço teórico propício para sua institucionalização, pois esta só seria possível através de um marco de múltipla diferenciação social. Logo, a sociedade civil se institucionaliza, dentro da teoria de Habermas, pela defesa do Mundo da Vida.

Os movimentos sociais, todavia, segundo Arato e Cohen, podem buscar também uma posição ofensiva frente ao sistema. Para tanto eles devem ser entendidos como instituições intermediárias entre mercado, Estado e sociedade civil, com o objetivo de propor soluções para os conflitos entre as duas racionalidades e suas respectivas ações.

Devido aos fatos mencionados, a Teoria da Ação Comunicativa de Habermas, assume a forma, segundo Avritzer, de uma Teoria Societária da Democracia, que tem como premissas básicas:
1) distinção da ação comunicativa dos processos administrativos e econômicos;
2) o limite da burocratização e da mercantilização no Mundo da Vida;
3) compatibilização entre racionalidade estratégica e racionalidade comunicativa.

A partir desta perspectiva, pode-se incluir os movimentos democratizantes na teoria habermasiana. Sendo estes movimentos entendidos como uma aversão à fusão entre Estado e Mercado, Estado e Sociedade e Mercado e Sociedade.

O exemplo de Avritzer sobre os limites quais as políticas neoliberais na América Latina tem diante desses movimentos, comprova que a teoria habermasiana se tornou um instrumento teórico fundamental para análise dos movimentos sociais contemporâneos.


Referência Bibliográfica:
AVRITZER, Leonardo. Sociedade civil: além da dicotomia Estado-mercado. In Novos Estudos, no 36, s/d.
Nota:
(1) ARATO, COHEN in AVRITZER, s/d.

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