Ando
entusiasmado com o que vem acontecendo e com as perspectivas que estão
se abrindo para a vida afetiva e sexual, assunto central do meu trabalho
desde 1976. Os jovens são os que têm nos mostrado os fatos novos de
forma mais clara. Foram eles que inventaram o ficar, a troca de carícias
sem compromisso com um parceiro momentâneo. Compreendem que o amor
é algo completamente diferente do sexo e se sentem muito bem com isso.
O amor corresponde à agradável sensação de paz e aconchego que nos
preenche quando estamos na presença daquela pessoa muito especial
e bem definida - a mãe, o amigo chegado, a namorada querida. Distinguem,
sem dificuldade, a ternura típica desses casos do jogo erótico e da
excitação sexual.
Não devemos subestimar a importância do ficar. Os adolescentes se
entretêm com práticas sexuais descompromissadas que antes somente
ocorriam entre crianças. Os rapazes têm uma oportunidade extraordinária
de conhecer as manifestações de suas parceiras e vice-versa. Aprendem
a lidar melhor consigo mesmos e também a se relacionar com o outro
sexo. (Por que temos usado a expressão "sexo oposto"?!)
Presenciamos a diminuição das tensões que sempre existiram entre os
sexos. Elas eram geradoras da raiva, inevitável quando as diferenças
são muito grandes e evidentes. A associação entre o sexo e agressividade,
base da tradicional guerra entre homens e mulheres, está se dissipando.
Estamos presenciando o nascimento de um ambiente verdadeiramente unissex,
uma forma de ser na qual nem os homens irão imitar o modo tradicional
feminino nem as mulheres serão parecidas com os homens.
O individualismo, que cresceu em decorrência do avanço tecnológico,
determinou o fim do amor romântico, em que cada um de nós é uma metade
e só se completa com o encontro da outra. Uma análise superficial
parece indicar que essa mudança é negativa, que estaremos mais sozinhos
e desamparados. Não é como tenho pensado: ao nos conscientizarmos
de que somos inteiros e não metades, ampliamos muito a liberdade individual.
Vamos aprender a estabelecer relacionamentos em que o respeito pelas
diferenças substituirá a antiga idéia de que é necessário fazer concessões
para que a vida em comum não se destrua. O respeito mútuo diminuirá
a possessividade e o excesso de direitos, que os amantes sempre julgaram
ter sobre os amados. Estaremos criando um novo modo de amar, baseado
em sinceridade, respeito, afinidades e genuína igualdade entre os
sexos. Tenho chamado esse amor de mais amor, mais do que amor.
As novas vivências sexuais permitem a fim da hostilidade entre os
sexos, e isso facilita ainda mais o estabelecimento desse modo de
amar. Uma boa relação amorosa cria ótimas condições para um convívio
sexual mais rico ainda. Penso que homens e mulheres serão, pela primeira
vez, grandes parceiros no século que se inicia. Apenas um alerta:
quem quiser usufruir de tudo isso terá que crescer muito interiormente
e não deverá descuidar da indispensável e exigente tarefa de aprimorar
ao máximo o autoconhecimento.