A
recente venda nas bancas do livro “Pantaleón e as visitadoras”, escrito
por Mario Vargas Llosa, me fez lembrar do filme baseado na obra, a
que assisti faz alguns meses. Saí do cinema pensando na escola onde
leciono. Vamos com calma... não é o que parece: é mais do que isso.
Aliás, recomendo o livro e/ou o filme a quem ainda não o leu, ou viu.
A gente lava a alma ante o humor e senso crítico da abordagem de uma
realidade que nos diz respeito. Não vou contar o enredo, tem cabimento!
Refiro-me apenas a uma cena que uso como mote desta reflexão. O personagem
principal é Pantaleón, um disciplinado capitão com brilhante folha
de serviços, que recebe a missão secreta de implantar um bordel flutuante
na Amazônia peruana, como paliativo para os crescentes casos de estupro
contra mulheres civis, praticados por soldados “a perigo”.
Pantaleón - ou don Panta, como é apelidado pelas “visitadoras”, nome
de guerra das prostitutas a serviço da paz - organiza a operação com
eficiência positivista e seu sucesso supera as previsões. Na cena,
o capitão necessita ampliar seu contingente e está prestes a contratar
aquela que seria a mais bela das visitadoras: a Colombiana, no filme;
a Brasileira, no livro. Enrabichada por don Panta, a deliciosa Colombiana
oferece a ele um exclusivo “control de calidad” dos serviços que passará
a prestar a toda a tropa (no livro, o capitão é que insinua à Brasileira
um “exame de admissão”, mas dá no mesmo). Corta o papo, que não estou
a fim de estragar o prazer de ninguém.
Vamos ao que interessa. O que minha docência tem a ver com Pantaleón
e sua visitadora? Fico devaneando: “Se o controle de qualidade é praticado
até numa atividade heterodoxa como essa, por que não o seria numa
escola que se quer séria?” Não vos amotineis, ó atenienses: meu intuito
é colaborar. Me respondam rapidinho: qual é o principal serviço de
uma instituição educacional? Ganha um sonho da padaria quem afirmou
que a atividade-fim são as reuniões; dança uma valsa quem respondeu
que é fazer avaliação; merece um Sonho de Valsa quem ousou dizer que
se trata da boa e velha aula. Tudo a favor da pesquisa e da extensão,
que devem articular-se com a docência (e vice-versa), mas fico na
bronca quando alguém acha que faz graça ao proclamar que “esta escola
é muito boa, mas o que estraga são os alunos”.
Qualquer microempresa que se preze tem duas preocupações principais:
controlar a qualidade de seus produtos/ serviços, e conhecer seu mercado.
Pois, pergunto se as escolas têm idéia clara sobre as aulas que nelas
são dadas. Segundo o senso comum, lecionar é a coisa mais fácil do
mundo e não demanda “prática nem tampouco habilidade”: basta botar
um giz na mão do gajo, nomeá-lo professor e está tudo encaminhado.
E não me digam que se trata de algo de pouca monta. Basta um cálculo
em cima do joelho para saber quantas aulas são dadas a cada dia em
determinada escola. Vinte? Cinqüenta? Cem? Já pensou em quanto essa
soma representa de envolvimento humano e quanto forneceria de informação
e base para aperfeiçoamento? Quantas descobertas, impasses, obstáculos
e superações! Em geral, toda essa riqueza se desvanece no ar devido
à falta de um olhar institucional voltado para o conjunto. Eis o Sísifo-docente,
condenado a um eterno recomeço.
Mesmo que soubéssemos que a maioria das aulas é um primor, ainda assim
seria necessário identificar a razão do sucesso. Considerando que
“a aula” não é uma substância em-si, pairando nas nuvens, mas é essencialmente
uma relação, a falta de uma visão articulada acerca de um dos pólos
(os alunos) encerra o outro (nós, docentes) num clima enevoado em
que, tateantes e não raro desesperados, nos apoiamos na intuição e
na empiria.
De novo suplico, ó atenienses, não vos amotineis. Sei que uma escola
não é uma fábrica, as aulas não são salsichas à venda e os alunos
não vieram para lanchar. Sem desmerecer da produção material, a prestação
de serviços educacionais tem uma dignidade originante das demais.
Carrega, pois, muito maior responsabilidade. Se é assim, então por
que se aprimora tão pouco nosso principal serviço e não se aprofunda
o conhecimento da cultura, anseios e desafios de nossos parceiros
na relação educativa?
Mais que exercer um “control de calidad”, mesmo que prazeroso como
o da visitadora, as escolas deveriam antecipar-se e oferecer uma política
permanente de capacitação a seus docentes. Algumas, poucas, oferecem
laboratórios de aula, treinamentos e atualizações e procuram conhecer
melhor a juventude com que trabalham. Essas deveriam ser rotinas numa
profissão que se congratula anualmente pela missão sublime que intui
realizar diariamente.
Feliz Dia do Professor, professor(a).