Numa
segunda-feira fria de junho, aula de Ética e Cidadania, no Ensino
Médio do Instituto Santana de Vinhedo, interior de São Paulo, eu,
maleixo e cainho, na correria, vindo de São Paulo, de carona, debaixo
de chuva peneiradinha, ainda preparando giz, texto (Paulo Freire ou
Rubem Alves?) classe mal arrumada nas carteiras, fui surpreendido
pela inusitada pergunta de grosso calibre em sala de aula:
-Professor, por que temos que copiar tudo o que o sr. passa na lousa?
Olhei o aluno. O mais inquieto e taludo da sala. Gostava mais de vadiar,
brincar, atrapalhar, do que estudar sob o nosso arcaico rigor formal,
mesmo nas aulas diferenciadas, vamos dizer assim. A classe meio de
soslaio, sondando uma possível resposta detravessada. Líder nato,
o Ruy Rosa. Eu ali, GLS: giz, lousa, saliva:
-Bem, Ruy – respirei fundo, fiz pose, larguei o giz e fui fundo -
tinha que dar retorno:
-Como educadores, pesquisamos, preparamos aulas, planejamos dentro
de um mínimo legal de conteúdo obrigatório, vemos o que é melhor pra
vocês, dentro do que vocês eventualmente tendem a precisar de base,
para um mundo futuro melhor, um mercado de trabalho saturado, uma
concorrência difícil, uma bagagem que permita evoluções e exercícios
de habilidades a partir disso.
-E quem diz que é o melhor pra nós?
-Bem, Ruy, prossegui, vocês têm mesmo que ter autocrítica, avaliar,
captar o que interessa, for realmente de serventia, ir encucando,
fazendo uma base, e, paulatinamente, num crescendo, alguma coisa,
com certeza, vai servir na vida prática, funcional, profissional,
social. Não se trata de exatamente de um exato "achar o que é melhor
para vocês", mas, ponhamos, num contexto, o que servirá de base para
vocês, para um degrau acima, ano após ano, curso após curso, num ritmo
crescente, seqüencial, evolutivo.
-Como é que tem tanta gente cheia de estudos e desempregada? Então,
pra que estudar tanto, se tem tanta gente sem estudo no governo, tem
rico sem diploma, tem empresário suspeito faturando, de traficante
informal a camelô contrabandista, ou até o crime organizado num mercado
paralelo da clandestinidade disfarçada para enganar a quem se deixa
enganar por um bom preço da justiça comprometida?
Aluno sabido é fogo. Ainda bem. Faz parte.
Bem Ruy, esse é um país que, no processo histórico todo, de um modo
geral, nunca valorizou muito a educação e a cultura. Depois, o nosso
injusto modelo econômico prefere explorar o jovem, do que correr risco
com um quarentão. Ademais, imagine se essas pessoas que estão tentando
sobreviver às duras penas, não estudassem o suficiente e básico para
pensarem riscos, situações, vivências, buscas, saídas? E depois, os
problemas do país são realmente graves, quer pelo seu tamanho e grande
área de fronteira, por ser travessia de drogas que são exportadas,
mais uma impunidade por atacado e o lucro até gerando fome...
-Mas eu posso traficar e ganhar uma bruta grana, muito mais em um
dia do que o sr ganharia numa semana.
-É verdade, Ruy, Esse é um dos grandes males do século. Pessoas viciadas,
porque querem fugir de uma realidade com a qual não sabem lidar, por
problemas psicológicos, legais, familiares, ou outros, querem um mundo
substituto, uma realidade paralela, uma espécie de fantasia estimulada
pela química, mesmo sacrificando o emocional, o psicossomático, o
fisiológico. Mas, você sabe, quando a policia pega pesado, ou até
os justiceiros de ocasião, não é o doutor que financia o crime, nem
o chefão coronel de alta sociedade, nem a autoridade corrupta, nem
o corruptor político camuflado querendo status ou mesmo com circunstancial
imunidade parlamentar, é sempre o coitado " mané" traficante quem,
afinal de contas, paga o pato. Curto e grosso: o passador, o traficante
no micro espaço.
-O sr. já usou drogas, professor?
-Usamos todos os dia, Ruy. Nas bebidas, nas comidas, no ar ruim, nos
vernizes, tintas, engodos, máscaras, se é que você me compreende.
-Nenhuma droga?
-Talvez três.
-Quais?
-Corinthians (que tá uma droga, perdendo pra todo mundo, quase rebaixado
- na época tava assim), a cerveja só nos finais de semanas, sem exagerar,
e a bendita da poesia...
-Então o sr diz não às drogas, ou tá naquela de "Drogas, tô fora,
fui comprar?"
-Todo santo dia digo não às drogas, guri. Até bolei uma frase: Diga
não às drogas: Não Fome, Não miséria, Não Corrupção, Não Violência,
Não Contrastes Sociais, Não Lucros Impunes, Não Riquezas Injustas...Não...
-O sr. é contra ou a favor as drogas, afinal?
-Ora, Ruy, quem sou eu para dizer se sou contra ou a favor? Eu apenas
passo o texto, explico uma idéia, explano sob um enfoque meu a partir
de releituras e pesquisas, dou exemplos, passo filmes, conto de vidas
perdidas como Cazuza, Renato Russo, Jimmy Hendrix, Jannis Joplin,
Fred Mercoury, mas você é quem julga, avalia, tira sua própria conclusão
de per-si...
-Então as lições e experiências também estão implícitas nos textos
caprichados que o sr passa?
-Exato. Mais ou menos assim. Você copia, lê, pensa, sente, avalia,
discute, reflete, também lê jornal, estuda muito (para ser muito na
vida), acessa sites na Internet, lê outros livros de sua época e de
seu tempo - Geração Coca Cola - troca informações, audita valores
e momentos, e, num crescendo, como eu já disse, paulatinamente, vai
adquirindo sua bagagem vivencial, até ter uma razoável opinião formada
que ainda assim pode ser esclarecida, porque pode mudar, e novas atitudes,
somas, aprendizados e renúncias devem ser sempre reavaliadas, num
contexto mais amplo, se é que você me entende.
-Professor, posso fazer uma pergunta pessoal?
(Lá vem gaiatice – Sondei o tipo que agora parecia mais sério do que
o costumeiro. Feição de toleima. Afinal, o ser humano não tem peça
de reposição, e o primeiro capital inerente que tem é a sua curiosidade
própria).
-Claro Ruy Rosa, pode perguntar o que quiser...
-Mas o sr. não vai ficar brabo, não vai se ofender, jura? Não vai
dar suspensão, mandar pra diretoria ou bilhete pro pai?
-Claro, cara. Pode perguntar, vá fundo!
(Cacei intenções: esse cara vai perguntar se eu sou comunista, se
eu sou bicha, se eu votei nesse governo corrupto aí, se...)
-O sr. fuma maconha antes de vir pra escola, professor?
De início a turma não acreditou. Ficou boquiaberta, estupefata. Acharam
muito acinte do colega, como compreendi na ocasião e no apurado favo
do momento. Depois me repararam normal, tranqüilo, sereno, seguro,
e, então, aliviados, a classe caiu na gargalhada. Nunca esperavam
aquela espécie de provocação dele? Eu mesmo não intui essa pergunta
em alto e bom tom.
Mas, por tabela, senti o, digamos "elogio".
Não preciso de apurar minha lucidez com alterador químico de comportamental.
Sempre fui pirado pela própria natureza... Sensibilidade à flor da
pele? Pode ser. Isso e aquilo.
Não agradeci, claro. Mas eu expliquei era "normal" assim mesmo, feito
um clone ruim de um pobre coitado de improvisado Raul Seixas depois
da dengue. Acharam graça. Trocaram chistes. Troçaram figurinhas de
diálogos rápidos. Um louco?. Um sonhador?. Um plantador de canteiros
de rebeldes sem barba? Isso era eu. E eles?. Rebeldes, ainda, sem
causas.
Mal sabiam, os rebeldes sem barba, que eu era um " louco" pela própria
natureza. Os loucos herdarão a terra? ("Deus deve amar os loucos/Criou-os
tão poucos")
Ou, pior, num país desse, para ser Educador, antes de ser mesmo uma
cruz, uma missão, é um sinal de loucura quem se propõe humanamente
a tanto?
Afinal, nesses bicudos tempos tucanos de um amoral e inumano neoliberalismo
globalizador, o sujeito tem que ser muito inteligente para passar
no concurso super-difícil, e otário o suficiente para receber depois
o miserê que vem descrito no vergonhoso holerite-cebola...
Tocou o sinal. Fui salvo pelo gongo?
A classe saiu curtindo a fera de meio, que se atrevia a tanto, desse
jeito natural e contestador de meio que marotear um mestre. Mas eu
senti que ele era quem parecia que era. Como eu, nos meus erros e
defeitos, ainda assim era naturalmente natural. Faz parte.
Talvez ele tenha tirado uma lição do papo todo, penso eu.
Aquele rebelde sem barba, se estudasse muito, seria muito na vida.
Se soubesse usar sua cabeça, o seu talento natural, faria a diferença
no futuro. Jovens críticos, que pensam, avaliam, estudam, fazem a
diferença.
Não é por isso que vale a pena ser docente?
Se se apegasse a descaminhos, como acho que a droga propriamente dita
o é, iria literalmente dar com os burros n´água. Se somasse à sua
lucidez uma evolução gradativa nos estudos, seria alguém na vida.
E seria feliz.
E SER FELIZ não é o que necessariamente valora a grande viagem de
Existir, nessa Lição cotidiana que é vida inteira, quando temos mesmo
que dar um duro danado para realmente APRENDER?