{{Sapere Audare}} EDUCAÇÃO «TEXTO 11»
TÍTULO: A VIDA REAL: ESCOLA E SOCIEDADE
AUTOR:
Silas Côrrea Leite
E-MAIL DO AUTOR: poesilas@terra.com.br
DATA DE PUBLICAÇÃO NO {{Sapere Audare}}: 18/07/2002

"Ou locupletamo-nos todos, ou restaura-se a moralidade(...)"
Ruy Barbosa

Surpreendi-me quando uma professora de terceiro grau, lotada em uma universidade privada da periferia da chamada Grande São Paulo, declarou-se assustada com sua variada clientela de nível superior, na maioria sem ao menos saber conjugar uma oração com sujeito, predicado e verbo. Pois pensei que essa doutora universitária tivesse, como Educadora sim, uma noção real do verdadeiro triste estágio do atual ensino publico brasileiro como um todo, e, no caso, paulista-paulistano (a maior economia do Brasil), cujos problemas, cedo ou tarde, de forma direta ou indireta, explodem, se chegarem a tanto, num curso superior da rede particular de ensino.

Na verdade, na convivência que deveria ser salutar, entre os, por enquanto, quatro poderes, a comunidade carente ,e, as, ponhamos, autoridades oficiais, tudo parece meio disforme do real, quando não reinando a hipocrisia por atacado, ou mascaradas por mudanças que, na verdade, não mudaram nada. Ora, para variar, temos uma reforma de ensino que, na verdade não reformou nada, simplesmente deu rótulo novo ao antigo, apenas racionou serviços e espaços, e ainda, pior, trabalha Seres Humano enquanto números, estatísticas, porcentagens, tudo falseado, beirando ao ridículo, tornando, na teoria-praxis, a tal reforma de araque (para agiotas do capital estrangeiro arrotarem grandezas pífias) uma empulhação de mala e cuia, com apoio estatal, principalmente desse último insensível governo.

Nunca se falou tanto em Educação nesse país, e nunca o brasileiríssimo Ser Humano enquanto profissional do ensino publico, ganhou tão pouco. Menos do que um balconista das Lojas Riachuelo. Menos que um motorista de ônibus urbano da paulicéia desvairada. Por outro lado, nunca as escolas receberam tantos papéis bonitos, coloridos, chiques, de primeira qualidade principalmente estética e conceitual, enquanto os educadores ganhando uma miséria, simplesmente migram para bicos, viram camelôs de ocasião, acabam sacoleiros de coisas cabritadas (ou feitas às pressas na economia informal de porões e quintais), porque o que ganham se matando, em lícitos mas inumanos acúmulos, mal pagam problemas pessoais e carências causadas por amoralidades inumanas de um Plano Real em terra brasilis de muito ouro e pouco pão.

O próprio Ministro Paulo Renato, certa feita, de forma açodada e suspeita, liberou verba altíssima para universidades privadas, porque estas estavam falindo e tendo problemas de "lucros", de geração ruim de finanças por interesses escusos. Ora, quem não tem competência não se estabelece, quem não tem capital que vá especular com a fome e a miséria, por exemplo, lá nos Estados Unidos. Lá, no caso, seriam processados, presos. Aqui, abancam suspeitos créditos desviados do erário publico, sem auditorias e fiscalizações. Enquanto isso, por outro lado, as universidades públicas beiram à falência, para gáudio de neoliberais que querem globalizar a santa ignorancia, inclusive a política, claro, para se revezarem de forma espúria nos podres poderes.

Na convivência entre colegas conscientes, politizados, a frustração é geral. Todos seguem carregando a canga de novos serviços, cobranças emergentes (mentiras novas com vernizes velhos), enquanto não têm qualquer aumento de salário, e, quando recebem o holerite-cebola, têm vergonha, tristeza, frustração, com o tal governo de um janota e boçal ex-ateu, ex-marxista, ex-sociólogo.

O Ensino Publico vive capengando nas mãos de educadores que resistem, apesar de tudo, e se não fosse isso, seria bem pior ainda a violência generalizada nesses tempos tenebrosos (de corrupção endêmica institucionalizada em toso os níveis mais uma impunidade malufiosa), pois cada sala de aula na realidade seria uma triste micro-febem. Pior é quando uma sra. que se diz secretária de educação, ao ver um professor idoso e competente ser agredido, culpa a vítima; ao ver outro mestre ser morto em exercício de regência, não faz nada pela segurança do bairro que também resulta de forma indireta e imediata na escola. Infelizmente parecendo mais uma pára-quedista que, por motivos escusos despencou na Rede de Ensino e quer fazer chover no molhado, sem ter consciência crítica e ético-legal do que é mesmo a dura realidade de uma sala de aula, historicamente refletindo lucros impunes, riquezas injustas, e ainda pioradas a partir da incompetente e corrupta ditadura militar, depois, nessa nossa frágil democracia, somadas às nefastas privatizações-roubos, apagões irracionais em terra de energias de todos os tipos, mais aberrações técnico-administrativas-funcionais que tornam bizarro o quadro negro da educação pública como um todo.

Fóruns de convivência de mestres (os sem salário), mais ONGs e organizações internacionais poderiam denunciar esses desgovernos que resultaram no atual "Pai da Fome" (FHC), fazendo uma conclamação popular universal, pela conscientização pública geral, pois que a greve de fome já dá para se medir nos cansados e doentes professores, estressados e depressivos, endividados e tristes, que até tentam comer a insossa merenda da escola para passarem o dia inteiro (e são criticados por isso), entre dois empregos, vários bicos e tantas consternações, tentando sonhar com dias melhores – sonhar é preciso, a esperança e a inteligência da vida – até que vejam uma luz no fim do túnel em tempos futuros, com uma sociedade esclarecida brigando por um humanismo de resultados, e nem estatizaçao, nem privatização, mas humanização.

E depois, justiça seja feita, verdade seja dita, acabamos por perder o respeito àqueles que camuflados multiplicam dívidas sociais, distribuem favores a banqueiros e agiotas internacionais, agradam esquemas escusos e bandalheiras de terno, gravata e farda, promovem engodos para ludibriarem o povão (constitucionalmente razão de ser do estado) e ainda promovem inversão de valores com apoio de parte comprometida da mídia e de empresários que, diziam que iriam embora se o Lula fosse eleito e preferiram o Collor e depois o FHC. E de Fernando em Fernando, o povão vai se ferrando.

Nesses últimos tempos que, antros econômicos e balaios de ratos em bandas cambiais, fundam cidadãos como meros dígitos entre inflações camufladas e esmolas pseudosociais com grife e cartões bancários, os educadores devem buscar por fóruns de debates, convivências sadias, troca de informações sobre a docência em todo o território, esclarecimentos legais e éticos, por que como está não pode continuar, sob pena de, num futuro não tão longe assim, sermos substituídos por amigos do alheio, máquinas sem ternura, e acabarmos todos cobaias desses nossos tempos de arbítrios disfarçados de uma frágil democracia que na verdade é uma ditadura da mídia (e medidas provisórias), quando os professores acabarão se escondendo em bazares de periferias, bobas lojas de um dólar, clandestinos carrinhos de hot-dog, sofrendo ainda a hedionda violência já generalizada, banalizada, ferrando ainda mais a educação pública principalmente, somando uma vergonhosa e histórica impunidade por atacado, pois que a vida na Colômbia é melhor do que no Brasil (quantas guerrilhas temos em campos e cidades?), quando a inflação na Argentina é menor do que no Brasil (e lá derrubam governos neoliberais que aqui engolimos com nhenhenhéns), quando, até, situações graves no Afeganistão empatam com a nossa - acredite se quiser - e o nosso salário mínimo, apesar de sermos uma das dez mais economias do mundo, perde, por incrível que pareça, para o Paraguai, gerando nesses vários "brasis" de contrastes sociais, um holocausto nas ruas da miséria, entre os sem terra, sem salário, sem amor, sem Educação.

EM SUMA: Brasil: -Que falta de Educação!


(Texto da Série – Inventários & Partilhas - Prática Educacional Vivenciada)

  Silas Corrêa Leite, de Itararé-SP, é Professor e Poeta, pós-graduado em Didática, Redação, Relações Raciais e Literatura.


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