Uma das coisas que diferencia as sociedades avançadas das atrasadas
é o tamanho de suas elites. A democratização e a universalização da
educação nos últimos 100 anos fizeram muito pela diminuição do domínio
das elites, mas elas continuam sendo essenciais para a integridade
e continuidade do funcionamento da sociedade como um todo.
A extinção de diversas sociedades civilizadas do passado dão credibilidade
a essa teoria. Recentemente estive visitando novamente as ruínas do
povo Maia, na península de Yucatán, no México, e, como da outra vez,
elas me provocaram muitas reflexões. A cidade de Chichen Itzá, por
exemplo, a 65 km de distância de Cancún (muitos turistas brasileiros
que vão para lá poderiam tomar uma boa lição da história se arranjassem
um tempinho para visitar as ruínas) tem o porte, a imponência e a
beleza plástica de áreas semelhantes da Grécia e do Egito. Uma pirâmide
imensa e um palácio inacreditável, com mil colunas e magníficas abóbodas
e escadarias, dominam com elegância e mistério uma área que surge
do meio do nada, na floresta densa da planície que se estende em todas
as direções. Fiquei imaginando como se sentiram os primeiros exploradores
europeus, ao toparem com semelhante maravilha, pela primeira vez.
Até mesmo comprei Maya Explorer, uma biografia de Jonh L. Stephens,
o legendário explorador e arqueólogo americano que revelou essa civilização
perdida para o mundo, na metade do século passado.
A sofisticada civilização religiosa e guerreira maia desapareceu de
forma abrupta cerca de 200 anos antes de chegarem os conquistadores
espanhóis. Centenas de cidades enormes, como Palenque, Copán, Cobá,
Uxmal, Tulum e Chichen Itzá foram desertadas por seus habitantes de
forma misteriosa, e deixadas para trás. O povo maia não morreu, pois
os mesmos milhões de índios de pele acobreada, nariz aquilino, testa
ampla, olhos amendoados e porte atarracado continuaram a viver e se
reproduzir em choupanas de pau-a-pique e teto de palha, pelos séculos
subseqüentes. O que desapareceu foi o conhecimento capaz de erguer
pirâmides, de construir estradas pavimentadas de pedra e cimento com
centenas de quilômetros de extensão, de prever eventos astrônomicos
com séculos de antecedência, e desenvolver uma matemática, linguagem
escrita e arte tão elaboradas como os seus iguais na China, na Índia
e no Egito. O que morreu foi a elite minúscula de padres-cientistas,
artesãos e governantes que detinha esses conhecimentos e os passava
de geração em geração através da tradição oral e escrita. Não temos
números, mas especula-se que ela seria constituída por pouco mais
de 1 % da população maia!
A resistência e continuidade de um povo depende, portanto, do tamanho
e do grau de isolamento de suas elites científicas e tecnológicas.
Ninguém sabe ao certo o que levou os maias (assim como a civilização
minoana, e tantas outras) à perda de seu acervo científico e tecnológico,
mas um dos fatores foi a guerra excessiva e patológica entre os lordes
maias. Outras especulações incluem uma seca prolongada, e até a devastação
causada por uma religião bárbara, dedicada ao sacrifício humano. O
fato é que qualquer povo está sujeito a isso. Um cientista inglês
do século passado chegou a afirmar que a Grã-Bretanha regrediria à
epoca medieval, se a sua pequena elite de cientistas e engenheiros
desaparecesse subitamente.
Todas essas reflexões me trazem ao aspecto que eu, cansativamente,
tenho debatido: o de que, nós, brasileiros, corremos o perigo constante
de sacrificar a continuidade dessa nossa elite intelectual, pelo descaso
que estamos tendo com a educação. As elites se autoperpetuam através
da herança cultural, transmitida em seu seio, e isso é aparente no
fato de que a burguesia que delas se alimenta manda seus filhos para
os melhores colégios e universidades, como a USP e a UNICAMP. No entanto,
a democratização do acesso à educação, que só ocorreu no Brasil há
muito pouco tempo, historicamente falando (universidades públicas
de boa qualidade existem há meio século apenas), deveria assegurar
que esse privilégio de pertencer a elite criadora fosse assegurado
com base apenas no mérito e na inteligência dos seus estudantes, e
não exclusivamente em sua posição social e econômica. Embora possa
se argumentar que uma das funções do exame vestibular é justamente
prover um portão equalitário e seletivo através do mérito, o fato
é que poucos jovens do chamado "povão" têm oportunidade de acesso.
A
tragédia infindável do nosso ensino gratuito primário e secundário
(quem ensina ou tem parentes que ensinam nessas instituições sabe
do que eu estou falando…) está comprometendo o futuro e a vitalidade
do povo brasileiro. Talvez precisássemos ter a coragem de mudar totalmente
o modelo, virá-lo de cabeça para baixo, de partirmos para soluções
novas e eficazes.
Será que a escola pública é realmente o único modelo? Será que aumentar
o salário do professor público é a única solução ? Será que o vestibular
é mesmo necessário? Como obrigar as elites a serem mais generosas
para com os despossuídos do acesso ao conhecimento?
Todas as "vacas sagradas" precisam ser desafiadas, nessa reengenharia.