A nova indústria do belo
Walter Benjamin, seguidor da escola de Frankfurt, em seu livro "A
obra de arte na época de suas Técnicas de Reprodução", apresenta
a nova estética da reprodução técnica, ou seja, a nova indústria do
belo.
I – A reprodução da obra de arte
A obra de arte foi sempre suscetível de reprodução. As técnicas de reprodução
são um fenômeno novo, de fato, que nasceu e se desenvolveu no curso
da história, mediante saltos sucessivos, separados por longos intervalos,
num ritmo cada vez mais rápido. Os gregos só conheciam duas técnicas
de reprodução: a fundição e cunhagem.
Com a gravura na madeira, conseguiu-se pela primeira vez, a reprodução
do desenho, muito tempo antes de a imprensa permitir a multiplicação
da escrita.
Com a litografia, as técnicas de reprodução marcaram progresso decisivo.
A litografia permite às artes gráficas, não apenas se entregar ao comércio
das reproduções em série, mas de produzir, diariamente, obras novas.
Este papel da litografia viria ao passar do tempo, ser suplantado pela
fotografia. Com ela a mão encontrou-se demitida das tarefas artísticas
essenciais, que, daí em diante, foram reservadas ao olho fixo sobre
a objetiva. O olho capta mais rapidamente do que a mão. O fotógrafo
fixa as imagens no estúdio de modo tão veloz como o que o ator enuncia
as palavras.
I I – A autenticidade da obra de arte
Uma reprodução, porém, nunca é completa. Por mais perfeita que ela pareça,
falta sempre algo: o hic et nunc (o aqui agora) da obra de arte, a unidade
de sua presença no próprio local onde se encontra.
O hic et nunc do original constitui aquilo que se chama de sua autenticidade.
A própria noção de autenticidade não tem sentido para uma reprodução,
seja técnica ou não. Mas diante da reprodução feita pela mão do homem,
o original mantém plena autoridade: não ocorre o mesmo no que concerne
à reprodução técnica; pois de um lado a reprodução técnica esta mais
independente do original. Por outro lado, a técnica pode levar a reprodução
a situações, onde o próprio original jamais seria encontrado.
O que caracteriza a autenticidade de uma coisa é tudo aquilo que ela
contém e é originalmente transmissível, desde sua duração material até
seu poder de testemunho histórico.
Mesmo com todas as técnicas de reprodução, nunca se atingi (reproduz)
a aura da obra de arte; pois a aura seria uma espécie de característica
divina da obra. A aura implica na essência da obra. A reprodução está
cada vez mais terminando com essência histórica e com a educação cultural,
legado da obra. O que se vê hoje é um processo de “dessacralização“,
de massificação em relação à obra de arte. O cinema é um grande exemplo
disso. Hoje em dia se vai ao cinema, não com o intuito de educar-se
com a obra, mas sim para degustar de um prazer momentâneo, de um simples
divertimento.
III – A obra de arte deve educar
As formas de sentir e de perceber do homem, modificaram-se no decorrer
da história humana. A forma orgânica que é adotada pela sensibilidade
humana não depende apenas da natureza, mas também da história. Contudo
os antigos não estavam preocupados em mostrar as transformações sociais
que implicavam em seu modo de percepção.
Hoje, estamos mais bem situados do que eles para compreender isso. As
modificações que assistimos podem se exprimir como um declínio da aura,
sendo assim permanecemos em condições de indicar as causas sociais que
conduziram a tal declínio.
É aos objetos históricos que aplicaríamos mais amplamente esta noção
de aura, porém para melhor elucidação, seria necessário encarar a aura
de um objeto natural. Liga-se ela a duas circunstâncias, uma e outra
correlatadas com o papel crescente desempenhado pelas massas na vida
presente.
Dia a dia, impõe-se gradativamente a necessidade de assumir o domínio
mais próximo possível do objeto, através de sua imagem e, mais ainda,
em sua cópia ou reprodução. Essa simples reprodução, que torna-se um
alinhamento da realidade pelas massas, o alinhamento conexo das massas
pela realidade, constitui um processo de alcance indefinido, tanto para
o pensamento, como para a intuição. Walter Benjamin defende que se reaviva
a educação através da obra de arte, não que apenas se a reproduza como
fenômeno de massificação.
IV – A tradição na obra de arte
A unicidade da obra de arte não difere de sua integração nesse conjunto
de afinidades que se denomina tradição. A própria tradição é uma realidade
bem viva e mutável. Uma estatua de Vênus, por exemplo, era vista de
forma diferente entre os gregos antigos e os medievais. Os gregos adoravam
a estátua e os medievais a consideravam algo maléfico. Embora a estátua
tenha sido interpretada, vista, de maneira diferente, por causa da tradição,
ela não perdeu a sua unicidade, a sua particularidade, a sua aura.
Porém, é claro que se reproduzíssemos a estátua, através da fotografia,
por exemplo, estaríamos privando-a de sua aura, pois teríamos em mãos
apenas a cópia e não o original.
V – Valores da obra de arte
Caso se considerem os diversos modos pelos quais uma obra de arte pode
ser acolhida, a ênfase é dada, ora sobre um fator, ora sobre outro.
Entre esses fatores, existem dois que se opõem diametralmente: o valor
da obra como objeto de culto e o seu valor como realidade exibível.
Ao analisarmos uma estátua de uma catedral, por exemplo, encontramos
nela esses dois valores. Por um lado o valor de culto, religioso, algo
espiritual que a obra encerra. Por outro lado encontramos o valor enquanto
trabalho visível que, de certo modo, chega a ser comercial.
Estes dois modos de valorar a obra de arte são opostos, evidentemente,
porém em ambos a obra, se não reproduzida, contem a sua aura.
VI – A fotografia
Com a fotografia, o valor de exibição na obra de arte, começa a empurrar
o valor de culto para segundo plano. A fotografia reproduz a obra, fazendo
com que se dê mais ênfase à parte de exibição, ou seja, o que se pode
mostrar exteriormente na obra de arte. Com ela (fotografia) também se
perde a aura. Ela toma o lugar daquilo que é particular da obra original
(aura). Com o advento das fotos foram surgindo, e de maneira importante,
as legendas. Estas (legendas) têm como principal papel, explicar a quem
vê (apreciador), o efeito das primeiras (fotos).
VII – Polêmica entre os pintores e fotógrafos e ascensão do
cinema
Criou-se durante o século XIX uma grande polêmica entre os pintores
e os fotógrafos para decidir se a fotografia era ou não uma obra de
arte.
Porém, a maior preocupação da estética na época não era esta discussão,
mas sim o surgimento de uma arte que viria marcar muito no futuro do
cenário cultural, o cinema. É bem significativo que o desejo de conferir
ao cinema a dignidade de uma arte obriga seus teóricos a, nele, introduzir,
através de suas próprias interpretações e com uma inegável temeridade,
elementos de caráter cultural. Alguns teóricos apaixonados atribuíam
ao cinema algo como extraordinário, sobrenatural, mas não a ponto de
ser considerado algo sagrado.
VIII – A performance do ator de cinema
A atuação artística de um ator de cinema não depende exclusivamente
dele, mas sim de todo um mecanismo que o envolve. O conjunto de aparelhos
que transmite a performance do artista ao público não esta obrigado
a respeitá-la integralmente. Sob a direção do fotógrafo os aparelhos
perfazem tomadas com relação a essa performance.
Essas tomadas sucessivas constituem os materiais com que o montador
realizará a montagem definitiva do filme. O ator de cinema tem que contar
com toda uma estrutura para desempenhar bem a sua função perante o telespectador.
IX – A aura e o cinema
No cinema, é menos importante o intérprete apresentar ao público uma
outra personagem do que apresentar-se a si próprio. Pela primeira vez,
em decorrência da obra do cinema, o homem deve agir com toda a sua personalidade
viva, mas no entanto privado da aura, pois a aura depende do hic et
nunc. Ela não sofre nenhuma reprodução. A aura dos intérpretes desaparece
necessariamente e, com ela, a das personagens que eles representam.
Os conhecedores da arte do cinema admitem, como escreve Arnheim, no
cinema “é quase sempre interpretando o mínimo que se obtém mais
efeito... A última escala do progresso consiste em reduzir o ator a
um acessório, escolhido pelas suas características... e que se utiliza
funcionalmente”.
Por outro lado, no teatro, é visível e entendível a presença da originalidade,
da aura do personagem interpretado pelo ator. Fato que não ocorre no
cinema, pois este é composto por várias montagens de cenas, e isto,
faz com o ator não vá além da reprodução, da representação do personagem,
não conseguindo preservar sua aura. Alguns apostam que isto faz do cinema
apenas uma bela aparência.
X – O trabalho do ator de cinema
No cinema, o ator não vende apenas a sua força de trabalho, mas sim
diante da câmera, entrega-se por inteiro ao telespectador. Esta é uma
espécie de opressão, aponta Pirandello, que o aparelho faz ao ator.
Na medida em que restringe o papel da aura, o cinema constrói artificialmente,
fora do estúdio, a “personalidade do ator”: o culto do astro,
que favorece ao capitalismo dos produtores e cuja magia é garantida
pela personalidade que reduziu-se ao encanto corrompido de seu valor
de mercadoria.
A técnica do cinema assemelha-se àquela do esporte, pois em ambas o
espectador é um semi-especialista. Os eventos esportivos são feitos
a fim de que os jovens possam "criticar", dar um parecer a
respeito do evento. Para que o jovem possa dar este parecer, já que
ele é um semi-especialista, é necessário que ele compre o jornal a fim
de manter-se informado sobre o evento. Desta maneira o fim último do
evento esportivo não é fazer crescer a criticidade do jovem, mas sim
vender o evento para gerar lucro a quem produz. Da mesma maneira podemos
aplicar esta técnica ao cinema. Vende-se o cinema como produto do mercado
capitalista, não preocupa-se com a obra de arte que ele realmente é,
com a educação que ele pode inserir. Os produtores cinematográficos
apenas reproduzem a imagem das pessoas, desejo que elas têm na contemporaneidade,
fazendo do cinema um espetáculo de representações ilusórias e equívocas.
XI – Oposições ao cinema
Já analisamos até aqui um pouco das diferenças, das contraposições existentes
entre o cinema e o teatro. O teatro conhece o local, onde basta se situar
a fim de que o espetáculo funcione, o que não existe no estúdio cinematográfico.
O filme só atua em segundo grau, uma vez que se procede à montagem das
seqüências, ou seja, o aparelho no estúdio, penetrou tão profundamente
na própria realidade que se deve recorrer a um conjunto de processos
peculiares.
Contudo, não é apenas o teatro que se opõe ao cinema, também a pintura
o faz. Walter Benjamin explica esta oposição fazendo a comparação entre
um mágico e um médico, e a diferença com que estes agem sobre uma operação
(operação aqui como a conhecemos, sinônimo de cirurgia). O médico faz
uma intervenção cirúrgica, totalmente mecânica, onde ele intervém internamente
no doente. O mágico, por sua vez, conserva a distância natural existente
entre ele e o paciente, embora também ele se utilize das mãos.
Entre o pintor e o filmador encontramos a mesma relação existente entre
o médico e o mágico. O pintor observa uma distância natural entre a
realidade dada e ele próprio; o filmador penetra em profundidade na
própria estrutura do dado. As imagens que cada um obtém diferem extraordinariamente.
A do pintor é global, a do filmador dividi-se num grande número de partes,
onde cada qual obedece as suas leis próprias.
XII – A individualidade da pintura
As técnicas de reprodução aplicadas à obra de arte mudaram a atitude
da massa com relação à arte. O comportamento da massa perante uma obra
de Picasso é completamente diferente do comportamento da mesma massa
diante das cenas de Charles Chaplin. Eis a diferenciação do cinema e
a pintura. No cinema, o público não separa a crítica da fruição. Desfruta-se
do que é convencional, sem criticá-lo; o que é verdadeiramente novo,
critica-se a contra gosto.
O cinema desperta este interesse coletivo, de massa, como foi falado,
sem que haja um ar de reflexão. Já a pintura tem por natureza o contrário.
Ela tende a ter um ar de individuação, ou seja, é própria para a contemplação
de um apreciador exclusivo, não de uma massa, como faz o cinema. Isto
não nega totalmente um caráter social na pintura. Assim como o cinema
ela também o tem, porém é mais difícil de ser percebido. Percebe-se
isto ao se analisar as pinturas de ambientes sociais como as igrejas,
por exemplo.
XIII – A caracterização do cinema
O que caracteriza o cinema não é apenas o modo pelo qual o homem se
apresenta no aparelho, é também a maneira pela qual, graças a esse aparelho,
ele representa para si o mundo que o rodeia. Nesta visão, o cinema também
ajudou a crescer as idéias intrínsecas da psicanálise. E é em decorrência
disso que as suas realizações podem ser analisadas de forma bem mais
exata e com número bem maior de perspectivas do que aquelas oferecidas
pelo teatro ou pela pintura.
Com relação à pintura, a superioridade do cinema se justifica naquilo
que lhe permite melhor analisar o conteúdo dos filmes e pelo fato de
ele fornecer, assim, um levantamento da realidade incomparavelmente
mais precisa.
Com relação ao teatro, porque é capaz de isolar número bem maior de
elementos. Graças ao cinema pode-se reconhecer a identidade entre o
aspecto artístico da fotografia e o seu uso científico, até então amiúde
divergente.
XIV – Relevância da obra de arte
A obra de arte é de suma importância cultural para o homem. Uma de suas
tarefas essenciais sempre foi a de suscitar determinada indagação num
tempo ainda não maduro para que se recebesse plena resposta. A sua história
comporta muitas épocas críticas. Uma delas é a do dadaísmo. O dadaísmo
buscava produzir, através da pintura ou da literatura, os próprios efeitos
que o público, hoje solicita do cinema.
De espetáculo atraente para o olho e de sonoridade sedutora para o ouvido,
a obra de arte, mediante o dadaísmo, transformou-se em choque. Ela feria
o espectador ou o ouvinte; adquiriu poder traumatizante. E, dentro disso,
favoreceu ao gosto pelo cinema, que também possui um caráter de diversionamento
pelos choques provocados no espectador, devido às mudanças de lugares
e de ambientes.
Mediante a sua técnica, o cinema libertou o efeito de choque físico
daquela ganga moral, onde o dadaísmo de certa forma o havia encerrado.
XV – As obras de arte sempre existirão
A massa é matriz de onde emana todo um conjunto de atitudes novas com
relação à arte. A quantidade tornou-se qualidade. Tomando isso como
princípio, vê-se a velha recriminação dos críticos de arte: a massa
procura a diversão, mas a arte exige a concentração.
Porém, diante de uma obra de arte é necessário concentra-se, para poder
mergulhar dentro dela e descobrir o que ela traz de mais essencial.
Todavia, o que se vê hoje, principalmente por causa do cinema, é um
apenas divertir-se, distrair-se com a obra de arte. Mas, como foi falado,
a função da obra vai além dos parâmetros da diversão.
Desde a pré-história os homens sempre foram construindo obras de arte.
E elas são para o homem, como edifícios necessários à morada. Ora, da
mesma forma que o homem necessita de uma morada, ele também necessitada
da obra de arte, pois ela já está intrínseca na sua história. É verdade
que muitas obras no decorrer da história foram esquecidas, ultrapassadas,
porém, assim como o homem constrói novos edifícios para morar, constrói
também novas obras para que a arte possa se perpetuar.