O filme THX-1138 retrata uma sociedade rigidamente governada pelo totalitarismo
das máquinas. A Tecnologia, que assumiu o comando, exerce um ferrenho
controle sobre a vida dos indivíduos, meros coadjuvantes num mundo sem
escolhas. Nessa sociedade, em virtude do excesso de burocratização,
não se respira a liberdade. A padronização (como meio de evitar indesejáveis
"surpresas" ) atingiu o ápice, não dando ensejo a improvisação e procurando
cada vez mais a criação de apego à sempiternas rotinas. Em THX-1138,
é a "vontade" da máquina que determina a estrutura e o comportamento
social. Há sim uma exaltação ao coletivismo. No entanto, isso se dá
sobretudo como forma de alienação, visando, em última instância, à completa
despersonalização das relações entre indivíduos. O pressuposto de que
"o homem é um instrumento a ser usado pelo sistema" é o que na verdade
prevalece na sociedade do filme; a qual, através de lemas como "Trabalhe,
aumente a produção e seja feliz" ou "Seja eficiente e viva feliz", revela
uma intenção subliminar de gerar os valores mais adequados à sua reprodução
contínua. Em THX-1138, a "performance" perfeita (certamente a que, na
concepção taylorista, atrairia a máxima eficiência) é o ideal a ser
perseguido. E, para isso, o planejamento (não só em questões ligadas
à produção, mas também em relação ao meio-ambiente e ao sexo - cuja
prática, tendo em vista o controle da natalidade, é reprimida) revela-se
imprescindível. É patente também, naquela sociedade, a carência de formas
de valorização das atividades desenvolvidas no trabalho por seus indivíduos
(o que lhes tira a possibilidade do sentimento de realização na vida
). Procura-se, em verdade, negar-lhes quaisquer qualidades, capacidades
ou aptidões intrínsecas; a única satisfação que lhes é permitida provém
de fato de um estupefaciante, o Etrance, cuja produção e distribuição
fica a cargo do Estado (o Etrance é nitidamente utilizado por este no
processo de controle social dos indivíduos). O ato de pensar e sentir
é, outrossim, nessa angustiante sociedade futurística, repudiado (e
mesmo punido). O recondicionamento social é comumente o desfecho reservado
àqueles que teimam em libertar-se. Mas o que mais nos incomoda em THX-1138
é a possibilidade de imaginarmos que a sociedade ali descrita pode muito
bem vir a ser a nossa um dia...