{{Sapere Audare}} CINEMA «TEXTO 01»
TÍTULO: ANÁLISE DO FILME THX-1138 (Direção de George Lucas)
AUTOR: Leonardo Queiroz
E-MAIL DO AUTOR: leoql@bol.com.br
DATA DE PUBLICAÇÃO: 08/09/2000

O filme THX-1138 retrata uma sociedade rigidamente governada pelo totalitarismo das máquinas. A Tecnologia, que assumiu o comando, exerce um ferrenho controle sobre a vida dos indivíduos, meros coadjuvantes num mundo sem escolhas. Nessa sociedade, em virtude do excesso de burocratização, não se respira a liberdade. A padronização (como meio de evitar indesejáveis "surpresas" ) atingiu o ápice, não dando ensejo a improvisação e procurando cada vez mais a criação de apego à sempiternas rotinas. Em THX-1138, é a "vontade" da máquina que determina a estrutura e o comportamento social. Há sim uma exaltação ao coletivismo. No entanto, isso se dá sobretudo como forma de alienação, visando, em última instância, à completa despersonalização das relações entre indivíduos. O pressuposto de que "o homem é um instrumento a ser usado pelo sistema" é o que na verdade prevalece na sociedade do filme; a qual, através de lemas como "Trabalhe, aumente a produção e seja feliz" ou "Seja eficiente e viva feliz", revela uma intenção subliminar de gerar os valores mais adequados à sua reprodução contínua. Em THX-1138, a "performance" perfeita (certamente a que, na concepção taylorista, atrairia a máxima eficiência) é o ideal a ser perseguido. E, para isso, o planejamento (não só em questões ligadas à produção, mas também em relação ao meio-ambiente e ao sexo - cuja prática, tendo em vista o controle da natalidade, é reprimida) revela-se imprescindível. É patente também, naquela sociedade, a carência de formas de valorização das atividades desenvolvidas no trabalho por seus indivíduos (o que lhes tira a possibilidade do sentimento de realização na vida ). Procura-se, em verdade, negar-lhes quaisquer qualidades, capacidades ou aptidões intrínsecas; a única satisfação que lhes é permitida provém de fato de um estupefaciante, o Etrance, cuja produção e distribuição fica a cargo do Estado (o Etrance é nitidamente utilizado por este no processo de controle social dos indivíduos). O ato de pensar e sentir é, outrossim, nessa angustiante sociedade futurística, repudiado (e mesmo punido). O recondicionamento social é comumente o desfecho reservado àqueles que teimam em libertar-se. Mas o que mais nos incomoda em THX-1138 é a possibilidade de imaginarmos que a sociedade ali descrita pode muito bem vir a ser a nossa um dia...

Comentário enviado por William Canto Cruz - williamnow@zipmail.com.br
Não tive a satisfação de assistir ao filme, mas se comparando com o seu artigo deu pra imaginar e refletir sobre o assunto abordado.
Ao final do último paragrafo, não concordo plenamente que um dia podemos ser dominados por máquinas, pois o homem não gosta de ser dominado por sí próprios, ainda mais se for por máquinas que para os homens servem para satisfazer seus desejos e status.
Concordo que o homem do século 20 e 21 e futuramente, não sobreviverá sem as maquinas pois é fundamental que ela exerça força total e faça do mundo terrestre um mundo artificial onde os humanos seja os próprios obreiros de uma nova civilização.
( á natureza sobrevive ao metal o homem constroi sua decadência ).
Comentário enviado por cyberkouros@yahoo.com.br
Nós já estamos sob o dominio das máquinas, quase tudo que fazemos ou deixamos de fazer precisa da anuência de uma máquina; uma compra por cartão, uma viajada na internet, um cineminha, abrir uma conta bancaria, até mesmo no meu caso para assistir aulas (o controle é eletronico, via digital eletronica); eu só questiono a partir de que momento as máquinas assumirão o controle.
Comentário enviado por Victor da Costa - oitogalo@bol.com.br
O filme é muito bom e bastante vanguardista para a sua época. Excelente para se trabalhar em sala de aula, no ensino médio ou superior, possibilitando o interesse dos jovens e abordagens diversas. Mas cabe ressaltar que talvez o crítico Leonardo Quiroz não tenha discorrido acerca de um importante olhar sobre este filme: a idéia de que Lucas possa estar se referindo, não apenas a um mundo futuro ou o que no nosso estado burocrático e maquinária possa se tornar futuramente; mas sim ver o filme como uma metáfora do que vivemos AGORA, a questão da alienação e/ou do conformismo implantado pela tecnologia inoculadora de horizontes artificiais (a mídia, o quarto poder), o homem subterrâneo vetado à luz por um estado capitalista, a questão dos ideais implantados etc.
Será que o homem de hoje já não é sugado pelo sistema? E a massificação das personalidades ou sua simplificação inventada por uma mídia empresarial (big brother)? E o mercado excludente? O desinteresse pela educação e pela distribuição igualitária de renda visam o que? Entretanto, no filme, a censura é escancarada, enquanto nos nossos tempos, ela é velada e sagaz. Qual será a pior? Enquanto não se sabe que há censura, não existe interesse em lutar por horizontes mais translúcidos. THX é hoje, pessoal, mais até que o amanhã.

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