Do ponto de vista epistemológico, nenhum ramo do saber possui a verdade.
Esta não se deixa aprisionar por nenhuma construção intelectual. Uma
verdade possuída não passa de um mito, de uma ilusão ou de um saber
mumificado. Face à verdade, devemos padecer de profunda insegurança.
É preciso que morra a ilusão do Porto Seguro. Porque é uma ilusão
tétrica. Revela uma neurose geométrica. Ao invés de vivermos das evidências
e das teorias certas, como se fôssemos proprietários da verdade, precisamos
viver de aproximações da certeza e da verdade. Porque somos seus pesquisadores,
e não seus defensores. A este respeito torna-se imprescindível uma
opção crítica. Esta só pode surgir da incerteza das teorias estudadas.
Se estas já fossem certas, não haveria possibilidade de se fazer uma
opção. Por isso, creio ser um atentado contra o processo de maturação
intelectual toda tentativa de se ministrar ou transmitir "a" verdade.
O que precisamos fazer é relativizar as produções intelectuais e os
produtores de conhecimento. Vejo como algo de extremamente saudável,
fonte de saúde mental e intelectual, o gosto amargo das incertezas
e a dor íntima do desamparo face a posturas intelectuais relativizadas,
incapazes de se ancorarem em parâmetros absolutos. Quem, do ponto
de vista do saber, só pode andar de corrimão ou amparado por muletas,
está despreparado para a vida. A angústia da incerteza, o sentir-se
perdido e a descoberta tão decepcionante de que nossas verdades não
são a verdade, constituem parte essencial da processualidade de nossa
razão, e devem acompanhar-nos até o túmulo. A processualidade do saber,
quer científico quer filosófico, de forma alguma vem denegrir a ciência
e a filosofia. Pelo contrário, vem reconhecer seu verdadeiro estatuto.
Só se sentem denegridos os cientistas e filósofos obtusos e dogmáticos.
Porque, no fundo, não querem ver morrer seus ídolos. E tudo isso nada
tem a ver com ceticismo. O cético simplesmente não acredita na possibilidade
de conhecimento. Aqui se trata apenas de revelar os limites do conhecimento,
nunca de negar sua possibilidade. Se o conhecimento é uma miséria
ordinária, ainda assim vale como miséria. A paranóia começa quando
nele se vê o reino da abundância.