Não tentarei, aqui, explicar as razões e as causas que provocaram
a revolução espiritual do século XVI. Para nossas finalidades, basta
descrevê-la, caracterizar a atitude mental ou intelectual da ciência
moderna através de dois traços que se completam um ao outro. São eles:
1") a destruição do cosmo e, consequentemente, o desaparecimento,
na ciência, de todas as considerações baseadas nessa noção; 2") a
geometrização do espaço, isto é, a substituição, pelo espaço homogêneo
e abstrato da geometria euclidiana, da concepção de um espaço cósmico
qualitativamente diferenciado e concreto, o espaço da física pré-galileana.
Podem-se resumir e exprimir essas duas características da seguinte
maneira: a matematização (geometrização) da ciência.
A dissolução do cosmo significa a destruição de uma idéia, a idéia
de um mundo de estrutura finita, hierarquicamente ordenado (...) Essa
idéia substituída pela idéia de um universo aberto, indefinido e até
infinito, unificado e governado pelas mesmas leis universais, um universo
no qual todas as coisas pertencem ao mesmo nível do ser, contrariamente
à concepção tradicional que distinguia e opunha os dois mundos do
céu e da Terra. Doravante, as leis do céu e as leis da Terra se fundem.
A astronomia e a física tornam-se interdependentes, unificadas e unidas.
Isso implica o desaparecimento, da perspectiva científica, de todas
as considerações baseadas no valor, na perfeição, na harmonia, na
significação e no desígnio. Tais considerações parecem no espaço infinito
do novo universo. É nesse novo universo, nesse novo mundo, onde uma
geometria se faz realidade, que as leis da física clássica encontram
valor e aplicação.
A dissolução do cosmo, repito, me parece a revolução mais profunda
realizada ou sofrida pelo espírito humano desde a invenção do cosmo
pelos gregos. É uma revolução tão profunda, de conseqüências tão remotas,
que, durante séculos, os homens - com raras exceções, entre as quais
Pascal - não lhe apreenderam o alcance e o sentido. Ainda agora, ela
é muitas vezes subestimada e mal compreendida.
O que os fundadores da ciência moderna, entre os quais Galileu, tinham
de fazer não era criticar e combater certas teorias erradas, para
corrigi-las ou substituí-las por outras melhores. Tinham de fazer
algo inteiramente diverso. Tinham de destruir um mundo e substituí-lo
por outro. Tinham de reformar a estrutura de nossa própria inteligência,
reformular novamente e rever seus conceitos, encarar o ser de uma
nova maneira, elaborar um novo conceito do conhecimento, um novo conceito
da ciência, e até substituir um ponto de vista bastante natural -
o do senso comum - por um outro que, absolutamente, não o é.
Isso explica por que a descoberta de coisas e de leis, que hoje parecem
tão simples e tão fáceis que são ensinadas
às crianças - leis do movimento, lei da queda dos corpos
-, exigiu um esforço tão prolongado, tão árduo,
muitas vezes vão, de alguns dos maiores gênios da humanidade,
como Galileu e Descartes.